Hoje vamos discutir a angústia e a ansiedade. Primeiramente, acho conveniente discutirmos alguns conceitos psicológicos, para tentar elucidar com maior facilidade a complexidade de tais temas. As funções mentais superiores (memória, percepção e sensação, atenção, comunicação e linguagem, dentre outros) são funções do ego. Ele (ego) é a porção modificada do Id (de forma extremamente resumida, seria o instinto).
Uma das funções do ego é o acesso a motricidade, pois entre um impulso e a ação o ego intercala um pensamento.
Uma das principais funções do ego é de sintetizar o aparelho psíquico, organizando-o, combinando-o entre outras demais características desta ordem. Devido a estas funções o ego se torna frágil pelo excesso de funções e exigências. Sendo por isso a sede da ansiedade/angustia/medo.
· Angustia: ansiedade automática, aparece sem motivo aparente.
· Ansiedade: tem um representante psíquico.
· Medo: medo de algo da realidade, não um medo fóbico.
O ego para se manter integro tem que servir a 3 “senhores” ao mesmo tempo (Id, Superego, realidade externa). Quando o consegue, mantem-se integro. Quando não, entra em ansiedade, que é gerada pela incompatibilidade.
Sei que para pessoas não conhecedoras de tais termos, como Ego, Id e superego, isto pode se tornar meio confuso, mas disponibilizarei um anexo para facilitar o entendimento, mesmo que de forma elementar.
Vou tentar deixar mais simples com uma definição do livro A Psicologia em 50 verbetes – Lafont. “[...] É difícil estabelecer a distinção entre angustia e ansiedade, mas a angustia se caracteriza pela forma mais severa de ansiedade [...] A ansiedade é vivenciada na maioria das vezes em um nível fundamentalmente psíquico, a angustia, por definição, vem acompanhada de manifestações somáticas e neurovegetativas.”[1]
Se formos observar estes sentimentos, encontraremos como fonte principal, fatores internos, afetados ou não por motivos externos. Quando se encontra em período de perturbação, ou se ve perante algo que apresenta perigo (ou não, no caso das fobias) , o ser se agita e com isso a harmonia se desfaz, gerando angustia ou ansiedade.
Seja qual for o sentimento que formos observar, eles levam a uma série de sintomas físicos distintos que os acompanham. Alguns são dores de cabeça, falta de ar, apatia, pressão no peito, inquietação, tremores, dentre tantos outros.
Fica claro que ao entrar nestes estados, o individuo se vê em um quadro de perturbação, o que o impede de dar um passo a frente. Muito pelo contrário, quando percebe tais sintomas, que nada são do que alertas convidando-o a reflexão, ele se afugenta ainda mais de si mesmo e de seus sintomas, prendendo-se num ciclo vicioso.
Ao se deparar com os sintomas, o individuo geralmente se deixa tomar por eles. Desta forma se torna vitima de si mesmo, pois passa a alimenta-los, fazendo com que se tornem cada vez mais potentes, levando em muitos casos a uma série de perturbações psíquicas.
O fato de se deixar tomar pelos sentimentos e possíveis pensamentos que acompanhem estes sentimentos faz com que haja uma imobilização do sujeito. A pessoa literalmente ‘trava’ perante a situação, levando largos períodos de tempo, até se reabilitar e readquirir o equilíbrio.
Ao se deixar tomar pelos pensamentos intrusos e sentimentos negativos, que se não são sua origem em muitos casos são seus frutos, iniciamos um processo de cristalização mental. A cristalização mental, é a fixação de uma vibração (emoção, pensamento) sobre determinado assunto, fato, acontecimento, etc.
Os fluidos emanantes destas vibrações podem ser boas ou ruins, irradiando luz ou sombra, dependendo de sua intenção. Se sua origem é negativa, iniciamos então a trabalhar contra nós mesmos, e a contaminar o ambiente e pessoas que nos cercam. Porem, se trabalharmos conscientes de nossa própria capacidade, em relação a nós mesmos , podemos estar iniciando um trabalho de regeneração própria, que deixará um exemplo para os que nos cercam, construindo então uma cadeia de luz.
Sei o quanto é difícil parar para refletir em momentos como este, porque eu mesmo tenho meus momentos onde estes dois sentimentos são minha única companhia, mas devo ressaltar a importância da reflexão neste momento.
Em muitos momentos estamos muito ‘racionais’ e em alguns momentos muito ‘sensíveis’. Mas tentemos sempre andar no caminho do meio. O equilíbrio é a chave da evolução. Muito comum quando as pessoas querem mudar drasticamente suas vidas, pulando etapas essenciais, para chegar a rápidos resultados e geralmente sem esforços.
Atitudes assim levam apenas a frustração e para períodos de sofrimento. Devemos nos lembrar dos exemplos mais simples que nos cercam, a flor, por mais bela e cobiçada que seja, tem que esperar todo o seu processo de crescimento para poder enfim mostrar sua beleza. O jardineiro pode conversar, alisar, adubar, pular, gritar, mas a planta vai seguir seu próprio ritmo.
Sejamos jardineiros sensatos, e entendamos que a vida tem suas etapas, seus processos e seus caminhos. Não percamos todo nosso tempo projetando mil sonhos irreais, e perdendo o presente, que é o momento exato para agirmos e modificarmos nossa situação, para que aquele futuro se torne realidade.
Quantas pessoas não ficam horas perdidas em devaneios e caem comumente no erro de reclamarem da vida, que ela não os recompensa como devia. Porem não se movem a favor de seus próprios objetivos.
Um bom exemplo, muito comum é o de uma simples prova de colégio:
_Estou me sentindo mal...
_O que houve?
_ Preciso tirar 9 na prova!
_Voce estudou?
_Não.
A pessoa neste exemplo focou no que necessitava, mas não trabalhou para ter as condições ideais para que isso se tornasse realidade. Ela pode ter tirado nota máxima na prova, mas nem sempre as coisas vão funcionar desta maneira.
Pode ocorrer o caso onde a pessoa realmente estudou, mas não se sente ainda preparada para realizar a prova, isto também gera ansiedade. A falta de confiança em si mesmo, mais atrapalha do que ajuda em momentos assim. O trabalho constante de aprimoramento e desenvolvimento da confiança em si mesmo é lento, gradual e essencial.
Em muitos casos, ao iniciarmos uma reflexão e avaliarmos realmente se toda essa agitação é mesmo necessária, percebemos o quanto estávamos exagerando e iniciamos uma mudança de conduta. Podemos perceber que apenas colheremos o fruto de nossos esforços, o que se for um ponto positivo, será bom, se for negativo, deixemos o orgulho de lado e saibamos nos resignar a nossa própria incapacidade momentânea de granjear condições necessárias para as realizações que desejamos.
Sejamos sempre sinceros e humildes, aceitemos o fruto de nosso trabalho sem revoltas, elas de nada resolverá o que já está pronto e decidido. Se foi por falta de esforços, na próxima vez nos esforcemos mais. Se foi porque outras pessoas nos tiraram a paz, tenhamos compreensão que esta outra pessoa também está sujeita a todas as imperfeições que nós também carregamos e nos esforçamos para eliminar, mas sempre busquemos proporcionar ao outro o que desejamos que ele, por sua vez, nos proporcionasse.
Uma das formas de se trabalhar estes sentimentos é viver no presente, trabalhar no agora, para que o futuro possa ser o esperado. Lembrando sempre que a vida possui altos e baixos, momentos de ganhos e perdas, mas sempre perseverando no bem. Não é porque estamos tristes, amargurados ou raivosos, porque tivemos um dia ruim, que temos o direito de sermos agressivos ou cruéis com que nos cerca.
A vida não é um mar de rosas e nem deve ser um suplicio infindo para ninguém, mas em muitos momentos damos muito credito ao nosso próprio sofrimento, sendo que se olharmos para os lado veremos irmão sofrendo tanto quanto, ou mais do que nós e se mantendo fortes, quando muitos se deixam arrebatar pela simples oscilação dos acontecimentos.
Em muitos momentos não sabemos de onde vem aquela tristeza que se faz presente, redobremos então a reflexão e analisemos o que se passa em nossa vida, e se aquele sentimento realmente tem fundamento, ou se é uma manifestação da nossa não aceitação da situação atual em que estamos.
Em muitos casos a falta de aceitação da situação em nos encontramos, faz com que nos tornemos personalidades enfermas, que afastam todo e qualquer ser de si mesmo. Tais como o invejoso, o ciumento e o avarento. Vivem em febre pelo que não podem ter, achando-se donos do que possuem e que serão eternos possuidores. Tola vaidade e presunçoso orgulhoso ainda permeia nossos corações. Feliz daquele que consegue ver a felicidade do outro, sem que isso lhe desperte qualquer aflição interior, por mínima que seja.
Aprendamos a não desmerecer a tristeza que passamos nem achar que ela é maior que a de outrem. O sábio é aquele que vê na tristeza e na dificuldade uma forma de aprender, e tira das experiências os mais belos aprendizados, que poderia jamais aprender, se tivesse se deixado abater e simplesmente esperado o momento passar.
A coragem e a resignação são virtudes filhas da humildade, virtudes que devem ser usadas na proporção e na hora correta. Algumas pessoas já vem com este ‘timing de fabrica’, outros precisam aprender, mas não deixemos para amanha, um trabalho lento e gradual que deve se iniciar o quanto antes, para evitar desconfortos futuros.
No Evangelho segundo o Espiritismo, no capítulo V, encontra-se o tema do Bem e Mal Sofrer (disponibilizado na sessão evangelho), que nos traz grande balsamo consolador e conhecimentos capazes de abrandar as dores, quando bem entendido e aceito pelo coração. Dentre outras belas palavras que completam estes dizeres balsâmicos.
“[...]O desânimo é uma falta; Deus vos nega consolações, se não tiverdes coragem. A prece é um sustentáculo da alma, mas não é suficiente por si só: é necessário que se apóie numa fé ardente na bondade de Deus. Tendes ouvido freqüentemente que Ele não põe um fardo pesado em ombros frágeis.[...] Quando vos atingir um motivo de dor ou de contrariedade, tratai de elevar-vos acima das circunstâncias. E quando chegardes a dominar os impulsos da impaciência, da cólera ou do desespero, dizei, com justa satisfação: “Eu fui o mais forte”![...]” [1]
Quando se tem coragem e resignação, outros pontos de luz aparecem para brilhar na escuridão que abraça o individuo, ao se ver preso nestes sentimentos. A esperança, a paz, a força, todas necessárias para que se possa restaurar o equilíbrio e a harmonia interior.
Então se faz claro, o papel que temos para com a nossa própria paz. Não é o outro, e sim nós mesmo que somos responsáveis pelo barco de nossas vidas. Tomemos então em nossas mãos, o leme de nossas vidas, pois somente a nós mesmos podemos cobrar nossa paz interior e nossa felicidade.
[1] A psicologia em 50 verbetes - Angústia, p.7.
[2] O evangelho segundo o espiritismo - Cap 5 Bem Aventurados os Aflitos, Bem e mal sofrer, p. 119.
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