Olá, Pessoal!
Dando continuidade ao tema ilusão, conforme mencionado no
post anterior, chegou a vez de falar da ilusão que criamos em relação ao outro
e a ilusão que aceitamos do outro. Quem de nós em algum momento já não viveu
alguma dessas situações? Acredito que todos nós já sentimos o peso da realidade
logo após termos criado/aceitado tais ilusões.
Todos temos os nossos sonhos e anseios particulares, que
podem ou não acabar tornando-se cristalizações. Alguns desses sonhos, tão
doces, acabam tornando-se ilusões que moldam nossa vida, no geral
afetiva/social. Nesse contexto criamos amigos e cônjuges “perfeitos”, e no
geral, o contexto de perfeito é o que atende todas as nossas necessidades
(característica infantil, certo?).
E assim começa o ciclo de sofrimento, tanto para quem criou
a ilusão, quanto para o ser que foi tragado para dentro dela. Quem criou a
ilusão constantemente se debate em tentar ajustar a pessoa em seu ideal,
recebendo a frustração como alguma injustiça, como se não fosse merecedora de
tal suplicio. Já o ser que foi englobado na ilusão sofre pois constantemente
recebe a pressão de inadequação e necessidade de mudanças, para que possa
agradar o outro. É ou não é a receita para um problema?
A relação estabelecida acaba virando uma troca de
golpes, um cabo de guerra; não sendo raro ouvir, ao chamar da realidade os
conhecidos chavões: “Nunca imaginei que passaria por isso!”, “Não imaginei que
estava criando a cobra dentro de casa”, “O príncipe (ou princesa) virou sapo”,
entre outros. Lembrando que por relação, entende-se qualquer interação social.
De qualquer forma, os ideais devem servir apenas como base
moduladora dos atrativos. Os sonhos e ideais falam muito mais da pessoa que
sonha do que do “objeto de desejo”, pois reflete o interior da pessoa. Para
alguns a sinceridade é algo essencial, para outros ter dinheiro para viajar é
indispensável e a sinceridade se torna superficial. A beleza física, ou até
mesmo o quão “descolada” uma pessoa é em determinado grupo social, predominam
sobre as características de uma personalidade minimamente saudável. Em ambas as
situações há um reflexo do ser que deseja, e consequentemente de seu
crescimento interior.
Quando iniciamos um vínculo com alguém –lembrando que me
refiro ao social, podendo ou não se estender aos vínculos estritamente
românticos- devemos lembrar que assim como nós, aquele individuo possui uma
individualidade própria. Nessa individualidade existem gostos, desgostos, traumas,
anseios, esperanças e medos, assim como em você.
_Ah! Mas eu sei disso! - Por que então que não conseguimos
experienciar de forma natural e espontânea as relações? Por que entramos no
infantil ciclo de cobranças e exigências? Por que o egoísmo e a imaturidade
emocional falam mais alto? A resposta para isso está em nossa própria falta, em
buscarmos no outro o que nós mesmos deveríamos nos proporcionar, compreensão e
aceitação.
Como poderemos exigir de alguém compreensão e aceitação se
fugimos de nós mesmos, de nossos sentimentos? Como poderemos pedir que alguém
nos aceite como somos se usamos das mais diversas desculpas para justificar
nossos comportamentos viciosos? As relações humanas ainda são muito cruas em
sentido de vivência real, de entrega. Poucas delas são vividas de forma
espontânea e integral, relacionando a personalidade integral dos sujeitos, em
suas matizes positiva e negativa.
Atualmente, com a facilidade de envolvimento proporcionado
pela tecnologia com aplicativos e redes sociais, o ser humano é tratado como
algo descartável, onde só é levado em consideração características
superficiais. Porém, não devemos nos surpreender com a facilidade dos
encontros, pois se tivéssemos maturidade poderiam deles surgir amizades e
relacionamentos engrandecedores, devemos sim nos preocupar com a facilidade de
descartar e apagar as pessoas de nossas vidas, na menor contrariedade ou
oportunidade de “algo mais vantajoso”. Isto sim denota a imaturidade e pequenez
interior.
De qualquer forma, as ilusões (e imaturidade) acabam por privar a nós mesmos da
oportunidades de criar vínculos harmoniosos pela falta de um olhar consciente e
da empatia. Um olhar consciente em um vínculo é entender que, assim como nós, o
outro tem sua individualidade e oscilações emocionais. Já a empatia permite
colocar-se no lugar do outro para que haja uma aceitação e suporte, entrar no
mundo do outro. Isso nos faz tratar o outro com maior gentileza e doçura. Ou
alguém gosta de ser tratado de forma grosseira? Se a resposta for não, seria
interessante pensar duas vezes antes de rebater de forma áspera os diálogos,
pois o outro, provavelmente, também não gosta. Esse espelhamento é o começo da
empatia.
Mas isso não é uma via de mão única, quantas vezes nós não
aceitamos e participamos das ilusões alheias? Algumas delas nos é imposta
quando somos ainda pequenos, ou você não ouviu diversas vezes na sua infância. “_Quando
você crescer você vai ser ... né filh@? ou “_Filh@, homem/mulher não faz isso!”
Mas isso são apenas estímulos! Não podem ser tão
prejudiciais! Peço que lembrem-se da individualidade. Alguns diferem entre o
estimulo e a exigência, outros indivíduos se estruturam psicologicamente na ilusão
de que devem agradar a qualquer custo para receber amor, e nesse contexto
muitos sofrem por buscarem atender as demandas externas. E essas demandas não
são poucas não é mesmo? E o mais doloroso... quem consegue agradar todo mundo
se somos todos diferentes?
Existem diversos outros exemplos em que somos englobados na
ilusão alheia. Ao entrarmos em um relacionamento vicioso, ao nos permitirmos
vivenciar uma caminhada religiosa que não condiz com nosso real desejo interno,
ao aceitarmos comportamentos ditados pela cultura mas que, ao olhar crítico,
são comportamentos padronizados e completamente desprovidos de bom senso. Entre
outros.
Seja qual for a ilusão aceita, de nós para o outro, ou do
outro para nós, há uma privação em alguma das partes. Essa privação é grave,
pois é a privação da espontaneidade, seja ela de comportamento ou emocional.
Com a fixação dessas privações, o número tende a aumentar e o ser se sente
sobrecarregado e desgostoso, amargurado, pois não encontra passagem para
expressar a si mesmo.
Quando há um olhar consciente, o ser afasta-se ou limita
suas relações para aquelas que lhe são sadias. Limitar no sentido de que ele
conseguiu estipular até que ponto consegue lidar com as demandas externas. Ele
se tornou consciente de si, de seus limites e da limitação de consciência do
outro. Ele mantem a relação, só não mais se permite se subjugar à vontade
alheia, optou por respeitar a sua individualidade. Neste processo há um crescimento para ambos,
pois ambos são tragados para a realidade, porém é possível que hajam atritos
neste período onde ambos são removidos de suas zonas de “conforto”.
Quando ambas as partes percebem a realidade e a aceitam, um
passo gigantesco foi dado em sua maturidade emocional. Finalmente ambos podem
ser livres para serem quem são, e acima de tudo, se essa proximidade, essa
intimidade, é real ou ilusória. Neste momento que poderemos perceber se temos
afinidade ou não com aquela pessoa, pois será a partir daí que veremos quem ela
realmente é, e não quem esperamos que ela seja.
Independe de qualquer coisa, deixemos nossas defesas,
barreiras e ilusões de lado ao olharmos para o “mundo” de outra pessoa, não
sabemos realmente o que se passa e nossas criações sobre isso não irão nunca
condizer com a verdade. Permita-se ser e conceda essa mesma liberdade ao outro,
só assim um vínculo saudável se formará. Atritos irão surgir, pois são “mundos”
diferentes, mas até mesmo neles existe a possibilidade de crescimento. Que o
vínculo seja avaliado pela quantidade de reciprocidade e empenho em buscar a
harmonia e crescimento interno, pelos sorrisos compartilhados e, é claro, pelo
apoio espontâneo que brota quando menos se espera e não no nível de perfeição
idealizada.
Por fim, feliz daquele que se conhece e aceita até mesmo sua
porção mais obscura, pois consegue lidar com ela de forma sadia. Somente assim
podemos olhar para o outro (e para sua ‘sombra’) com o mesmo carinho que
olhamos para nós mesmo. Acredito que se colocássemos isso em prática, teríamos
vínculos harmoniosos e repletos de afetuosidade.