Todos temos lembranças, recordações, saudades que nos tocam fundo o coração, todo esse "arsenal" pode ser ou não uma forma de apego. Algumas lembranças são tão fortemente marcadas em nossos corações que uma simples menção nos traz doces lembranças ou amargas tristezas.
Estas formas de recordação que devemos vigiar para termos uma “relação saudável” com nosso passado. O desapego não significa banir as lembranças, nem exige o esquecimento das mesmas, pois toda experiência, seja ela agradável ou desagradável nos traz oportunidades de aprendizado.
Muitas destas lembranças podem nos atormentas e a origem das lembranças são diversas, podem ser relacionadas a empregos e oportunidades perdidas no campo profissional, um cálido “amor de primavera” perdido ou um amor não correspondido, até mesmo aquele amor platônico que tanto sonhávamos em ter. Todas essas lembranças podem se tornar desagradáveis e trazer sofrimento aos nossos corações.
Mas todas as “perdas” que podem ocorrer na vida humana, a que podemos categorizar como uma das experiências mais dolorosas é a do desencarne. O desencarne muitas vezes causa um trauma inicial muito grande pelo fato de o ente querido ser “arrancado de nós de uma forma rápida e muitas vezes brusca, até mesmo o “desencarne previsto” traz sofrimento.
Perante o desencarne nossos corações muitas vezes se sentem perdidos, vazios e entram em desespero pela tristeza e saudade que iremos sentir pelos nossos. Esses sentimentos que nascem em nossos corações se dão muitas vezes pelo impacto e nossa fragilidade ou pela nossa ignorância perante a vida espiritual.
O desencarne é apenas a extinção do corpo físico a alma, a essência retorna para o plano espiritual, verdadeira “pátria” de todos nós, a vida terrena é uma oportunidade que nos é dada para evoluirmos, podemos considerar a vida terrena como uma escola.
Existe uma forma lúdica de se ver o desencarne que seria como uma viagem, como se todos nós estivéssemos em uma ilha (vida terrena) onde existe doença, fome, guerra e todos os suplícios que o homem muitas vezes causa a si mesmo, e alguns recebessem uma passagem para retornarem ao continente (vida espiritual), onde seriam livres de todas as aflições e martírios do corpo. Os que receberam a passagem se dirigem ao barco obviamente e seguem rumo, se ficássemos observando o barco logo ele desapareceria no horizonte, porem o fato de ele desaparecer não significa que não esteja lá certo?
O desencarne seria como essa viagem de barco, onde nossos entes queridos apenas desaparecem no nosso contato sensorial físico, mas podemos “contatá-los” com o contato da prece cálida, esperançosa e cheia de recordações felizes que enchem o coração de júbilo pela alegria de terem sido vividas, pois a mesma é levada e sentida por eles que também sentem a mesma saudade e sabem que um dia haverá um reencontro, porem também sentem e sofrem quando a lembrança é tortuosa e preenchida de sofrimento e desespero, o que não é raro especialmente no inicio do período de separação.
Encontramos luz nas amorosas e esclarecedoras palavras de [1]Sansão: “Quando a morte vem ceifar em vossas famílias, levando sem consideração os jovens em lugar dos velhos, dizeis freqüentemente: “Deus não é justo, pois sacrifica o que está forte e com o futuro pela frente, para conservar os que já viveram longos anos, carregados de decepções: leva os que são úteis e deixa os que não servem para nada mais; fere um coração de mãe, privando-o da inocente criatura que era toda a sua alegria”.
Criaturas humanas, são nisto que tendes necessidades de vos elevar, para compreender que o bem está muitas vezes onde pensais ver a cega fatalidade. Por que medir a justiça divina pela medida da vossa? Podeis pensar que o Senhor dos Mundos queira, por um simples capricho, infligir-vos penas cruéis? Nada se faz sem uma finalidade inteligente, e tudo o que acontece tem a sua razão de ser. Se perscrutásseis melhor todas as dores que vos atingem, sempre encontraria nela a razão divina, razão regeneradora, e vossos miseráveis interesses representariam umas considerações secundárias, que relegaríeis ao último plano.
Acreditai no que vos digo: a morte é preferível, mesmo numa encarnação de vinte anos, a esses desregramentos vergonhosos que desolam as famílias respeitáveis, ferem um coração de mãe, e fazem branquear antes do tempo os cabelos dos pais. A morte prematura é quase sempre um grande benefício, que Deus concede ao que se vai, sendo assim preservado das misérias da vida, ou das seduções que poderiam arrastá-lo à perdição. Aquele que morre na flor da idade não é uma vítima da fatalidade, pois Deus julga que não lhe será útil permanecer maior tempo na Terra.
É uma terrível desgraça, dizeis, que uma vida tão cheia de esperanças seja cortada tão cedo! Mas de que esperanças querem falar? Das esperanças da Terra onde aquele que se foi poderia brilhar, fazer sua carreira e sua fortuna? Sempre essa visão estreita, que não consegue elevar-se acima da matéria! Sabeis qual teria sido a sorte dessa vida tão cheia de esperanças, segundo entendeis? Quem vos diz que ela não poderia estar carregada de amarguras? Considerais como nada as esperanças da vida futura, preferindo as da vida efêmera que arrastais pela Terra? Pensais, então, que mais vale um lugar entre os homens que entre os Espíritos bem-aventurados?
Regozijai-vos em vez de chorar, quando apraz a Deus retirar um de seus filhos deste vale de misérias. Não é egoísmo desejar que ele fique, para sofrer convosco? Ah! essa dor se concebe entre os que não tem fé, e que vêem na morte a separação eterna. Mas vós, espíritas, sabeis que a alma vive melhor quando livre de seu invólucro corporal. Mães, vós sabeis que vossos filhos bem-aventurados estão perto de vós; sim, eles estão bem perto: seus corpos fluídicos vos envolvem, seus pensamentos vos protegem, vossa lembrança os inebria de contentamento; mas também as vossas dores sem razão os afligem, porque revela uma falta de fé e constituem uma revolta contra a vontade de Deus.
Vós que compreendeis a vida espiritual, escutai as pulsações de vosso coração, chamando esses entes queridos. E se pedirdes a Deus para os abençoar, sentireis em vós mesmas a consolação poderosa que faz secarem as lágrimas, e essas aspirações sedutoras, que vos mostram o futuro prometido pelo soberano Senhor.”
Que possamos refletir nestas sábias palavras e expandir nossa consciência em relação ao desencarne. Que possam elas ser um bálsamo para os corações sofredores e que os mesmo se tornem esperançosos. E assim se encerra o tema Desapego, caso exista alguma dúvida a ser sanada basta avisarem que farei o que estiver ao alcance do meu entendimento para esclarecer o assunto. ^-^
(1. KARDEC, Allan. Bem-aventurados os aflitos. Em “O evangelho segundo o espiritismo” cap. 5, item 21.)
A algum tempo eu procurava algo esclarecedor sobre o desapego de um ente querido desencarnado, mas confesso que esse texto é muito mais do que esclarecedor, ele é CONSOLADOR. Obrigado ao autor.
ResponderExcluirA algum tempo eu procurava algo esclarecedor sobre o desapego de um ente querido desencarnado, mas confesso que esse texto é muito mais do que esclarecedor, ele é CONSOLADOR. Obrigado ao autor.
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